Tenho uma super amiga que trabalha em uma escola infantil, e assim surgiu o convite para uma
palestra sucinta sobre este tema... Acho bastante amplo falar de
desenvolvimento infantil, pois a psicologia tem suas várias vertentes teóricas
e cada fase tem suas características... Eu amo a infância e suas
particularidades... Criança é um encanto, um tesouro, emoções, sentimentos em
formação...
Uma grande responsa para os pais, vamos combinar?!!
Então pensei em facilitar e escrever alguns tópicos sobre o desenvolvimento
da criança para que a compreensão fique fácil, mas é importante lembrar que é
muuuuuuuito mais amplo do que vou abordar aqui ok? Então se algum pai ou mãe
identificar algum comportamento inadequado em seu filho ou ficar em dúvida
quanto a isso, o melhor a fazer é entrar em contato com a escola em primeiro
lugar, conversar com a professora, a coordenadora e depois disso, havendo
necessidade, e de preferência em conjunto buscar auxílio de um profissional da
psicologia que se dedique a entender o mundo infantil e o meio familiar.
Então vou dividir por fases... vamos lá:
Dentro do útero da mãe o bebê já vem vivenciando diferentes
experiências que o acompanharão durante seu desenvolvimento. Sensações, descobertas
marcantes, tudo é compartilhado. O feto de 2 meses já percebe o humor da mãe
devido aos hormônios que chegam pelo cordão umbilical. Depois do quarto mês, o
feto já reage aos sons e ao toque e começa a criar o vínculo afetivo com a mãe.
Células nervosas já estão formadas e transmitem impulsos nervosos produzidos
pelo tato e audição. Nos últimos 3 meses de gestação o bebê já percebe muito do
que ocorre ao seu redor, sensações, toques, som, etc.
O nascimento é a primeira experiência de separação entre mãe e bebê, por
isso é importante que seja vivenciado da maneira mais tranquila possível, onde
mãe e bebê precisam ser respeitados em suas condições físicas e
emocionais.
Atenção aos ritmos do bebê, para que o meio não lhe pareça agressivo.
0 a 2 anos se dá segundo Piaget, período sensório motor
(prático). O que é isso? É onde a criança
aprende que suas ações estão relacionadas as modificações do ambiente.
(manipulação pela ação).
Vou dividir um pouco por meses para explorar melhor o tema:
0 a 3 meses:
Fome e sede são necessidades vitais e por isso precisam ser atendidas.
Amamentação é o ponto central da maternagem, é o que vai ajudar na
organização afetiva da criança.
A relação mãe bebê torna-se cada vez mais fundamental e inestimável (mais
importante a qualidade do que a quantidade).
A mãe precisa estar realmente disponível ao seu bebê, isso é o que vai
passar para a criança que está se desenvolvendo noções sobre o alimento e
alimentar-se, abrigo e segurança, amor e confiança.
Nesta fase a criança é um ser indefeso com tendência a um desenvolvimento
saudável e cabe a mãe "sustentar" este desenvolvimento, ou seja
suprir as necessidades físicas e emocionais deste bebê. Para que isto ocorra da
maneira adequada é importante que a mãe identifique-se com a necessidade do
filho, reconhecendo o que ele precisa. Desde a forma como a mãe acolhe e segura
seu bebê, até a proteção e atendimento as suas necessidades fisiológicas e
emocionais.
Esse período que antecede o primeiro ano de vida da criança fala sobre o quanto
esta se sente segura e protegida para que possa se desenvolver de maneira livre
segura e saudável.
A partir de 1 ano
O bebê passa a ter consciência de si, dos seus sentimentos e
dos outros. Segundo Piaget, é onde "nasce” a inteligência já que o bebê
passa a perceber tudo e interage com o meio. Objetos, pessoas, situações geram
comportamentos e desta forma o bebê vai buscar satisfazer suas curiosidades e
vontades manipulando o meio.
É onde se inicia a fase oral: prazer e é identificado pela boca!
2 anos:
Inicio da fase anal,
aparecem as
tentativas de
Controle e Dominação.
O prazer é sentido no estômago, intestino, mucosa ano-reto-sigmoideana,
controle em segurar e expulsar. As fezes são parte da criança, que ela busca controlar,
assim controlando o ambiente e a reação das pessoas.
Fase ideal para deixar as fraldas!!!
Inicio da busca pela autonomia, que deve ser estimulada! Com o andar seguro
e comunicação mais clara ela está pronta para novas descobertas e desafios!
EGOCENTRISMO presente, a criança sente-se o centro das atenções do seu
mundo, superpoderosa!
Também nesta fase inicia-se a compreensão dos limites, e neste sentido
quanto mais clareza melhor, porém de uma forma breve. É bastante comum que
birras e raiva apareçam também!!!
Famosa, Adolescência da Infância, ou
Terríveis
2 anos, justamente por este conflito interno de Autonomia X Limites!
Oferecer poucas opções, limites claros e traduzir os sentimentos da criança
podem ajudar muito! Paciência e acolhimento também!
dos 2 aos 3 anos:
A criança está cada vez mais preparada para socialização, é curiosa, o mundo
ao seu redor à encanta e ela continua muito observadora. Sua linguagem evolui
rapidamente e seu pensamento "fantástico" a faz acreditar em contos
de fadas, super-heróis, lendas e "viajar" junto com personagens
imaginários.
Seu domínio motor permite que faça algumas atividades sozinha, como ir ao
banheiro, escovar os dentes, tomar banho, comer, etc. Sempre em busca de novas
conquistas a criança deve ter estímulos motores em suas brincadeiras e
atividades imaginativas podem ser interessantes.
Apresenta dificuldade em situar-se no tempo (fica angustiada quando perde a
referência interna: horário dos pais chegarem, horários que costuma se
alimentar...)
Próximo dos 3 anos a criança começa a estar
pronta para interagir com outras crianças de forma lúdica e saudável. Antes
disso as explorações do próprio corpo e do mundo ao seu redor são mais interessantes.
Fato interessante: nesta idade, outras crianças são vistas como
"objetos para brincar", e passam a ser percebidas somente quando tomam
o brinquedo da protagonista. Embora brinquem juntas, inicialmente cada criança
brinca sozinha.
dos 3 aos 4 anos:
Através das brincadeiras começam as diferenciações Masculino X Feminino.
Descoberta dos órgãos genitais ( prazer na zona genital) e curiosidades são
comuns nesta fase (é o momento onde a criança passa a observar mais o corpo do
adulto, as diferenças, surgem perguntas a respeito disto). Exploração e
manipulação causam prazer e devem ser respeitadas.
É a partir dessa idade que começam a surgir os primeiros
amigos e colegas verdadeiros. Geralmente possuem a mesma idade, sexo, interesses,
moram perto, são filhos de pais amigos ou estão na mesma classe pré-escolar. Quando juntas,
as crianças estão felizes e não se separam; quando
distantes, sentem falta da companhia da outra. Também é interessante perceber como as crianças mudam rapidamente de estado de humor. Uma hora "estão de mal" com o amiguinho, no minuto seguinte brincam juntos
novamente. Um adulto responsável por perto observando,
sem interferência, auxilia para que estas tentem lidar sozinhas com a questão.
Se não derem conta, poderão pedir ajuda.
dos 4 aos 5 anos:
Início do chamado Complexo de Édipo: sentimentos de rivalidade e desejo em
relação aos pais, busca por identificação com o genitor do mesmo sexto e
desistência e afastamento do amor do genitor do sexo oposto, são fatos
marcantes e experiências importantes que só terão resolução na adolescência no
exercício de escolha do (a) parceiro (a).
Em relação ao desenvolvimento psicológico, pode-se dizer que a IMAGINAÇÃO
flui continuamente, surgem muitas dúvidas e as perguntas, "como?" e
"porque?" são frequentes. Tudo interessa, tudo é questionado. A
criança continua muito observadora, mas mostra-se muito inquieta, normalmente é
uma fase de "agitação". Entende mas não interioriza as regras e por
isso tem dificuldade em aceitá-las. Os pais precisam ter paciência para repetir
"regras", "comandos" e "limites" muitas vezes.
Egocentrismo continua, tem necessidade de mostrar as conquistas e procura
chamar atenção para si.
Críticas não são bem vindas, normalmente a criança reage mal a estas.
Bastante comum nesta fase surgirem diagnósticos de hiperatividade, déficit de
atenção, dificuldade de concentração, uma vez que a energia da criança está
muito voltada a expansividade motora, interna e externa. INQUIETAÇÃO.
A criança ainda não tem a capacidade de organizar-se internamente
antes de se expressar, age e fala espontaneamente (sem pensar).
Fazem muitas perguntas que parecem não ter sentido e muitas vezes são
evasivas em suas respostas, parecendo cansativa e desinteressada em relação ao
outro.
MEDO é uma queixa frequente, uma vez que está buscando elaborar conexões de
seu mundo interno e externo.
Na escola é comum perder o foco na atividade proposta uma vez que achar algo
mais interessante.
Elabora o conceito de 1, 2 e muitos. Entende uma frase, um comando, uma
proposta mas não tem capacidade de analisar as palavras (capta a ideia, e
reproduz conforme entendeu).
Jogos ao ar livre, corridas, ritmo, música, movimento são preferências desta
fase.
Habilidade para trabalhos manuais parece desinteressante e tem ímpeto de
destruir ou derrubar coisas que construiu. Desenhar e pintar sem muitos limites
pode ser divertido, com limites já pode soar cansativo.
Normalmente demonstra interesse por jogos mais complexos, mas não gosta de
perder.
Muito importante o "modelo”dos pais, pois é uma fase de muita
observação e pouca compreensão e interesse no diálogo.
Dica: Ficar na altura da criança quando fala com ela, motivar seu interesse
e falar claramente o que espera dela é fundamental! Experimente perguntar logo
após a fala se ela entendeu e peça para que repita do jeito entendido, isso
costuma ajudar muito na comunicação.
Motive a criança, ajude-a a observar o mundo ao seu redor, a natureza, o
clima, as mudanças de estação, os dias da semana, as fases da lua, tudo isso
somará em seu conhecimento.
Para os pais: Paciência, bom humor, dar o exemplo (mais que palavras) e
ajudar a criança a entender seus sentimentos traduzindo o que for percebido!
dos 5 aos 6 anos:
Começa a mostrar interesse e entendimento pela rotina familiar. Seus
pensamentos já permitem que ela entenda e procure pensar antes de falar. Gosta
de assumir responsabilidades e adota uma postura mais séria, responsável e
independente.
Muito observadora, procura "modelos" e imita com frequência.
Gosta de fazer as coisas do seu jeito, mas interessa-se em agradar o adulto
e fazer as coisas de acordo com o esperado.
A fase de fantasia e histórias fantásticas continua, porém começa a entender
o que é real e o que é imaginário.
Contar os sonhos pode ser comum e mostra-se interessada por eles, a fala
durante o sono também é comum.
Entende melhor o conceito de obediência, mas nem sempre obedece.
Realista, Imediatista. Procura imitar o comportamento dos adultos, para sua
socialização uma imitação/identificação adequada ajuda neste processo.
No que diz respeito a escola, já mantém concentração mais estável durante as
aulas, usando sua concentração e imaginação para pintar, desenhar, criar...
Gosta de mostrar aos adultos seus feitos, e estes devem ser devidamente
elogiados.
Consegue desenvolver mais atividades sem tanta necessidade de auxílio.
Normalmente não se mostra comunicativa sobre os detalhes de sua vida
escolar.
Realiza tranquilamente atividades simples desde que bem explicadas.
Importante oferecer os materiais necessários e deixar que trabalhe sozinha,
treinando assim sua autonomia e independência.
Leitura, escrita, números e jogos fazem parte de seu foco de interesse.
Inicio de uma cooperação coletiva.
Este é o momento de incluir a criança no que diz respeito às suas
responsabilidades, pequenas ajudas em casa podem ser um bom início para a
compreensão da colaboração e da vida em família.
Estimular sempre o bom humor e a conversa sobre qualquer assunto sendo
sincero e explicativo nas respostas. Bom momento para iniciação musical pois
normalmente demonstram interesse por ritmos e música.
Neste momento a figura materna de aprovação, acolhimento e carinho é
fundamental, o centro de seu universo. A imagem da mãe ajudará muito em sua
formação e educação.
Fique atento as características individuais da criança para que os estímulos
oferecidos sejam os mais adequados possíveis para o desenvolvimento de suas
aptidões, habilidades, potencialidades.
Estimule atividades esportivas de interesse da criança.
Ensine a concentração, estimulando que esta mantenha-se atenta a determinada
atividade por um certo período de tempo, sem distrações. Ler histórias para
criança é um excelente exercício tanto cognitivo como emocional.
Apoie, oriente, respeite, elogie, participe... a criança que se sente segura
e tem modelos sólidos saberá enfrentar dificuldades com mais tranquilidade
futuramente.
dos 6 aos 7 anos:
Idade escolar! Um novo mundo ao alcance da criança, o MUNDO DAS LETRAS, com
a capacidade da leitura tudo passa a ter um novo sentido.
Início da fase do Pensamento Operacional Concreto (segundo Piaget), onde
classificar, contar, manusear, seriar, fazer sequências, jogos de adivinhação,
trabalhar hipóteses, parlendas e piadas são muito importantes e despertam a
curiosidade e o interesse da criança em atividades.
A motricidade já deve estar firme em todos os sentidos e estando segura a
criança diverte-se em jogos, brincadeiras, desenhos, tintas, texturas,
recortes... Dança e atividades esportivas do interesse da criança facilitam o
desenvolvimento psicomotor.
Jogos de memória despertam interesse, assim como letras e palavras, a
integração e coordenação visio-motora são atividades complexas e necessárias.
Entende regras mas tenta desafiá-las, muito notório no campo de jogos e
brincadeiras, demonstra dificuldade em perder porém aceita a culpa com mais
facilidade e desejando aprovação e aceitação sabe desculpar-se quando entende a
necessidade.
O interesse pela sexualidade adormece e a criança se mostra pronta para
aprender de uma forma mais intelectualizada a socialização.
Nesta fase o diálogo e as explicações devem ser mais consistentes. A criança
continua muito criativa, questionadora, compreende noção de tempo e espaço, e
busca uma independência física, psicológica e ideológica, construindo suas
verdades e buscando confrontá-las. Adapta o pensamento mágico a realidade
(começa a questionar figuras como Papai Noel, Coelho da Páscoa, Fada do Dente,
etc.)
Os adultos passam a ser menos necessários, aparecem mudanças de
comportamento e personalidade devido a novas influências (bom momento para
abrir fronteiras familiares).
A competição, atividades em grupo, compreensão de rotina, limites, regras
(rígidas e flexíveis) organizam o mundo interno da criança.
Ainda mostra-se Egocêntrica em muitos momentos porém mais flexível. Muitas
vezes pode mostrar-se dominadora, obstinada, desafiadora e até agressiva quando
contrariada.
Decidir pode ser difícil, gosta de ter muitas coisas, muitos interesses mas
ainda não faz sentido "cuidar" das mesmas. Mostra desejo e interesse
por brinquedos de outros colegas o que muitas vezes é motivo de brigas.
Começa a fazer sentido seu mundo familiar e seu mundo escolar e busca a
adaptação dos mesmos.
Passa a conhecer suas características, personalidade, aproxima-se de iguais
ou colegas interessantes, construindo sua autoestima e autoimagem.
Agitação, irritabilidade, são comuns, devem ser entendidas e ter um canal
para extravasar como um esporte ou atividade lúdica.
Tem interesse por histórias exageradas.
Deseja ser importante, destaque, querida, chamar a atenção. Neste sentido os
pais podem estimular muito o que julgam bom comportamento, pois as crianças
passam a ter uma noção mais real de bom e mau e preocupam-se com o julgamento
dos pais.
Normalmente dominante ao que julga ser seu e tem pouca tolerância as
críticas.
Procura agradar o(a) professor (a), este vínculo é muito importante pelo
interesse na escola e suas atividades.
Associar atividades usuais, experiências diárias ao aprendizado na escola
favorece o interesse pelo estudo.